Você não sabe o que é viver isso!

2 Aug 2018

 

 

Você está falando de seus incômodos durante sua terapia ou sua análise e de repente se vê tentado a perguntar àquele ou àquela profissional diante de você (ou atrás, se você estiver num divã) se ele ou ela já se apaixonou perdidamente, se já perdeu alguém muito querido, se tem filhos, se é casado ou casada, se já pensou como é a vida de alguém que vive ou viveu o que você está vivendo.  Mas de onde vem isso?

É comum que, quando estamos compartilhando algo a alguém, em especial algo íntimo e que tem peso especial para quem compartilha, desejemos que haja compreensão absoluta da intensidade, da dimensão, do valor daquilo que se conta. E uma das crenças é a de que apenas quem já viveu aquilo saberá do que se está falando. E efetivamente, é esse o princípio de grupos de auto-ajuda ou de ajuda mútua, que vem a ser um espaço de trocas de experiências de vida semelhantes, onde a narrativa de um pode ajudar o outro, onde a solução encontrada por alguém pode inspirar e até mesmo, onde falar de dores semelhantes serve para descobrir que não se está só, o que pode sim ser bastante benéfico. Em relações mais informais e quotidianas, contar algo a alguém pode vir seguido de um “ah, quando aconteceu comigo eu fiz assim” ou “com fulano foi assado”. De uma maneira geral, são situações que contam com uma identificação mútua que certifica que o que se está sentido foi reconhecido pelo outro.

 O que acontece, por outro lado, é que ainda que encontremos alguém que tenha vivido situação semelhante à nossa, cada um a viverá á sua maneira. Porque cada um tem sua história de vida, tem ou teve um amparo diferente (ou não teve), porque cada um entenderá o que acontece ou o que aconteceu de acordo com suas próprias crenças e o peso deste acontecimento poderá se dar conforme a estrutura de cada um e as possibilidades que cada pessoa tem para se recuperar (um tanto da famosa resiliência).

“E como meu terapeuta/analista sabe do que eu estou falando sem viver o que eu vivi?” Pois bem, a função deste profissional é, através de ferramentas e métodos próprios, justamente ajudar a entender COMO se vive aquela experiência que é narrada durante as sessões e COMO pode ser possível encontrar novas interpretações e novos significados que permitam uma releitura da experiência contada. Assim como um dentista não precisa ter tido que extrair um dos próprios dentes, ele se preparou em seus anos de formação para fazê-lo em seus pacientes, um psicólogo ou psicanalista não precisa ter vivido o que o/a paciente viveu para saber do que ele está falando. Já parou para pensar como seria a vida de um psicólogo se ele tivesse vivido as experiências de cada um de seus pacientes? Aliás, ainda que tenha vivido algo parecido, o profissional precisa distanciar-se de sua própria história para acolher devidamente a história de seu/sua paciente.

O que precisa existir e existe, sem dúvida, é o reconhecimento e o acolhimento daquele sentimento que ali se apresenta. A escuta profissional serve para que o processo de terapia ou análise permita à/ao paciente responder a suas próprias inquietudes através do autoconhecimento, da escuta das próprias palavras e da descoberta de recursos próprios  de resiliência e outras capacidades que andavam ocultos pelo desconhecimento de que eles estivessem lá o tempo todo. Porque, afinal das contas, a mesma experiência pode ser vivida de várias maneiras, inclusive pela pessoa que a viveu.

 

Julia Bartsch é psicóloga e psicanalista. Agendamentos pelo telefone (11)998642211 ou pelo formulário no site.

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